Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010.
DIÁRIO
Hoje é o último dia de nossa ações por aqui. Ainda teremos a tradicional festa da comunidade na sexta-feira à noite, onde fazemos as despedidas e trocamos os últimos abraços. Mas o dia de hoje já tem o gosto estranho da despedida, da saudade, da ausência, mesmo em meio à muita presença.
No devocional de hoje, o grupo que estava no seminário conversou sobre essa mística da presença na ausência. Só se fazem presentes em nossas vidas, independente da distância, aqueles que de fato amamos. E, tenham certeza, esse é o sentimento que temos por muitos aqui do Borel, principalmente aqueles de nós que já estamos aqui pela quarta, quinta, sexta vez.
Hoje é aquele dia em que servimos as pessoas e, quando se levantam da cadeira onde se corta o cabelo, da mesa onde se faz as unhas, da salinha onde se conta a história, da mesa onde se compartilha o pão, os abraços são mais demorados e os olhos perdem para as lágrimas. Muitos desses que passaram por nossas mãos talvez não vejamos nunca mais.
E qual é a impressão que esperamos que tenham de nós? A de que pessoas que amam um tal de Jesus Cristo e que se parecem com Ele, andaram por aqui e deixaram do seu perfume no Morro do Borel.
E qual a impressão que levamos daqui? A de que não viemos trazer Jesus, porque Ele já estava por aqui. Viemos nos encontrar com Ele. E nos encontramos!
AÇÕES
KIDS GAMES – Terminamos nossas atividades com as crianças com duas edições do Kids Games, um trabalho baseado em jogos cooperativos que visa a incentivar a mutualidade em detrimento da competição. Contamos com a ajuda do Gérson, um ex-integrante do projeto Radical África. Trabalhamos na Chácara do Céu pela manhã e no “Brizolão” à tarde. Foi muito difícil descer da Chácara ao final da programação sabendo que não voltaremos ali tão cedo. As sementes foram lançadas nos corações deles e nos nossos. Que floresçam a 30, 60 e 100 por um…
O Kids do Borel foi uma grande festa. As crianças descem todas juntas, no meio de nossa equipe. Ë uma cena linda. Crianças barulhentas e cheias de vida descendo a ladeira. Muito interessante vê-los nos chamando pelo nome. Eles elegem seus “tios” e “tias” preferidos e ficam pendurados nas mãos, pernas, ombros. E como tem muita criança, nenhum tio se sente preterido. Tem carinho pra todo mundo.
OFICINAS – Atendemos na Chácara com a Priscila Casareggio e equipe e também com a Késsia. Os alunos do Borel subiram para terminarem junto com os da Chácara os seus artesanatos. Esperamos que tais aulas movimentem a criatividade dos alunos e dê a possibilidade da geração de renda. Um aluna da Késsia perguntou se ela morava muito longe. Késsia disse que sim, mais longe do que ela imaginava (ela mora na Itália) e perguntou o porquê da pergunta, ao que ouviu: “vou usar tudo o que aprendi aqui para fazer as coisas para meu bebê (ela está grávida de 7 meses) e queria que você viesse para ver tudo no chá de bebê.”
SALÃO DE BELEZA – Separamos o dia de hoje para atendermos às missionárias da JOCUM e as meninas da Igreja Batista Peniel que foram voluntárias conosco nas E.B.F.’s. É sempre muito bom servir aos que servem. A Fátima, missionária mais velha da JOCUM, parecia uma “madame”, tinha uma pessoa fazendo o pé, outra a mão, outra o cabelo. Essas irmãs merecem muito mais do que isso. Merecem todo nosso respeito e admiração. Fazem tudo o que fazem por amor e por um senso apurado de chamado. Lavar os seus pés é um grande privilégio.
MEIO-AMBIENTE – Samuel e Maytê saíram para sua última caminha pelo Morro. Já vemos os cartazes que trouxemos em várias portas e estabelecimentos. Além disso, as caminhadas “pedagógicas” dos dois, mostrando para as crianças o que e como devem fazer, foram muito produtivas. Se queremos cooperar com a mudança de uma realidade de muitos anos, devemos começar pela reeducação de nosso pequenos. Foi isso o que tentamos fazer.
DENTISTA – O Alexandre continuou seu atendimentos hoje, nos dois períodos. Como escrevemos ontem, vamos investir na profilaxia no ano que vem e inserir uma oficina de escovação dentro da E.B.F..
PALESTRAS PARA ADOLESCENTES – fizemos hoje um ciclo de palestras para os adolescentes da comunidade. Os temas foram: “áudio e vídeo”, “eu posso mudar o Borel”, “papo aberto sobre relacionamentos” e “dança de rua”. Ficamos impressionados com a quantidade de adolescentes que apareceram e com a atenção que deram aos conteúdos. Cada oficina produziu algo para exibirmos na festa da comunidade, que acontecerá amanhã à noite. Contamos com a parceria especial de um grupo chamado MJPOP , formado por meninos e meninas que idealizaram um projeto de transformação estrutural à partir de realidades carentes em parceria com a Visão Mundial. O legal desse projeto é o fato de que seus idealizadores foram crianças atendidas em projetos da Visão Mundial.
FESTA DOS ADOLESCENTES – Organizamos uma festa para os adolescentes que participaram das atividades durante a semana. A decoração ficou linda, com jogo de luz, projeções de vídeos esportivos, luz negra, música ao vivo, samba, funk (ai…), snacks, coctailzinhos (sem álcool). Antes de abrirmos as portas, a rua já estava cheia de adolescentes muito bem arrumados para a festa. Quando abrimos, alegria geral. A festa durou até a meia noite e foi muito divertida. Tivemos a participação de uns 100 adolescentes.
PONTO BAIXO
A descida do Morro hoje. Sabemos que voltaremos para nossas realidades e que as coisas aqui continuarão muito parecidas. No sábado, nossos pés não estarão mais no morro mas, tenha certeza, grande parte de nossos corações ficará por aqui.
PONTO ALTO
Não somos, nem seremos mais os mesmo depois desses dias aqui. Isso está nítido nas conversas e nos devocionais. Achávamos que mudaríamos algo no Borel mas, na verdade, nós fomos os transformados nessa história toda. Reconhecemos e aceitamos isso com muita gratidão ao Espírito.

CENA DO DIA
Reencontramos duas crianças que conhecemos de forma muito triste no ano passado. Grazi e João Vítor sofriam violência de um tio viciado em drogas. No ano passado, o Rogério levou o caso à cabo. O resultado foi a expulsão do tio do Borel. Quando os vimos nesse ano, ficamos muito felizes. Perguntamos pela mãe deles. Não responderam nada. O menino agarrou na mão do Fabricio e desceu com ele para o “Terreirão” (área central do Borel). O Fabricio continuou a perguntar pela mãe dele, ao que respondia: “tá ali, tá ali” mas o “ali”’ nunca chegava. Foi quando o Rogério foi procurar a avó do menino. Ela disse que a mãe havia fugido dali por conta do vício em craque, que os meninos, Grazi e João Vítor, “sobraram” pra ela mas como trabalhava, os deixava no morro sozinhos até a noite. Grazi cuida do João Vítor. Ela tem 8 anos, ele 4. A vó ainda acrescentou: “se quiserem levar, fiquem à vontade”. Isso foi duro demais para terminar nossa estada no Borel. Duas crianças que continuarão sozinhas, alimentando-se do que ganharem dos vizinhos, perambulando pelos becos do Borel sem nenhuma esperança aparente e experimentando cedo o sabor do fel.
Perguntamos, onde está Deus? Qual a esperança pra esses meninos? A única resposta que nos vem à mente é: Deus está em nós e nós somos Sua resposta para os dilemas da humanidade. Que a autoridade do Cabeça, Jesus de Nazaré, baseada no amor, em vistas da justiça, chegue para a Grazi e o João através de nós, sua Igreja.


















































